CAPA e investigação de desvios

Como registrar o problema, investigar a causa, definir ações e verificar se elas funcionaram.

Um desvio precisa começar pelo que aconteceu.

Esse parece um ponto básico, mas é comum encontrar registros que já abrem com uma explicação pronta: “falha de treinamento”, “erro operacional”, “erro humano”. Quando a conclusão aparece antes da investigação, o registro tende a procurar evidências que confirmem aquela hipótese.

Registre o fato antes de discutir a causa

Uma boa descrição permite que outra pessoa entenda o evento sem precisar perguntar o que ocorreu.

Registre:

  • Onde aconteceu
  • Quando
  • Qual produto, lote, equipamento, documento ou processo estava envolvido
  • Como o evento foi percebido
  • Quais consequências eram conhecidas naquele momento
  • Qual contenção foi adotada

A contenção pode ser urgente. A causa pode levar mais tempo para ser entendida.

Correção imediata e investigação têm funções diferentes

Segregar um produto, refazer um registro ou interromper uma atividade pode ser necessário para controlar o problema.

Essas ações não explicam a origem do evento.

Se um desvio é encerrado logo depois da correção imediata, a empresa pode perder a chance de perceber que o mesmo problema já ocorreu antes ou que o processo continua sujeito à mesma falha.

Use os registros disponíveis para investigar

A investigação pode exigir documentos, dados de processo, histórico, entrevistas, manutenção, treinamento e informações de sistemas.

Perguntas úteis mudam conforme o caso, mas algumas aparecem com frequência:

  • Houve evento parecido antes?
  • O procedimento vigente descrevia corretamente a atividade?
  • A pessoa tinha treinamento para aquela versão do procedimento?
  • Houve alguma mudança recente?
  • O equipamento estava dentro das condições previstas?
  • O controle existente teria condições de detectar a falha?
  • Outros lotes ou processos podem ter sido afetados?

A profundidade da investigação deve acompanhar o risco e a complexidade do evento.

Quando aparece “erro humano”

A pessoa pode ter cometido um erro. Isso precisa ser registrado quando houver evidência.

Ainda assim, a investigação deve olhar para o processo em que o erro aconteceu.

Confira se a instrução era clara, se o formulário favorecia engano, se havia dupla checagem quando necessária, se o treinamento avaliava capacidade e se o mesmo tipo de erro já apareceu com outras pessoas.

Essas perguntas ajudam a distinguir um evento individual de uma condição que pode se repetir.

A CAPA precisa responder ao que a investigação encontrou

A ação corretiva deve ter ligação com a causa identificada.

Se um formulário confuso gera preenchimentos incompletos, repetir o treinamento sem alterar o formulário pode deixar a causa intacta.

Se o problema está ligado à estabilidade de um equipamento, revisar apenas o procedimento também pode ser insuficiente.

Ao revisar uma CAPA, procure essa ligação entre o problema, a causa registrada e a ação escolhida.

Nem todo desvio precisa do mesmo tratamento

Eventos simples e de baixo risco podem ser resolvidos com uma abordagem direta. Outros exigem investigação extensa, várias ações e acompanhamento por mais tempo.

Um sistema que transforma qualquer desvio em um processo pesado tende a acumular pendências. Um sistema superficial demais encerra casos sem informação suficiente.

A empresa precisa definir critérios para separar essas situações.

Defina como a ação será encerrada

Antes de executar uma ação, já deve ser possível dizer qual evidência mostrará que ela foi concluída.

Pode ser:

  • Procedimento revisado e aprovado
  • Equipamento qualificado
  • Treinamento concluído
  • Fornecedor reavaliado
  • Formulário novo colocado em uso
  • Alteração de sistema testada

Mudar o status para “concluído” não substitui essa evidência.

Depois, veja se a ação funcionou

A verificação de eficácia responde a uma pergunta diferente: a ação resolveu o problema que deveria resolver?

A resposta pode vir de registros posteriores, ausência de recorrência durante um período definido, teste do novo controle, auditoria direcionada ou indicador de processo.

O critério precisa fazer sentido para aquele caso.

Revise o conjunto de desvios

Um evento isolado pode parecer pequeno. Vários eventos semelhantes mudam a leitura.

Periodicamente, agrupe os desvios por área, tema, produto, equipamento, fornecedor, causa e tipo de ação.

Essa revisão ajuda a identificar processos que continuam produzindo o mesmo problema, mesmo quando cada ocorrência foi encerrada separadamente.

Fontes

  • ANVISA. Perguntas e Respostas — RDC 658/2022, Boas Práticas de Fabricação de Medicamentos. Abrir documento
  • ANVISA. Guia nº 8 — Investigação de Resultados Fora de Especificação. O guia tem escopo voltado a resultados laboratoriais, mas contém princípios de investigação baseada em evidência. Abrir documento

Os requisitos específicos de investigação e CAPA variam conforme o produto, a atividade e o regulamento aplicável.